Linux em computadores pessoais, anos depois.

agosto 14, 2012 § 2 Comentários

Das minhas lembranças mais remotas em um computador, já me recordo de estar apanhando para instalar uma versão bizarra do linux com a interface quadrada do Window Maker, que eu achava foda e, de uma forma muito contraditória, futurista. Mais de 15 anos se passaram desde minha primeira experiência com Linux, nesse processo, sistemas operacionais se tornaram uma paixão, acabaram sendo meu principal foco de trabalho até meados de 2008. Nessa época eu já não usava mais linux como estação de trabalho, apenas em alguns servidores da empresa que eu trabalhava. Minha estação de trabalho já era um FreeBSD bem customizado, de lembrar os olhos brilham.

Mas a empresa que eu trabalhava, que era totalmente baseada em plataforma aberta, foi comprada por uma grande empresa com uma forte inclinação à microsoft. Atualmente ela é um dos maiores revendedores microsoft do mundo. Minha linha de trabalho foi eliminada da empresa e passei a ter atribuições totalmente diferentes, fiquei muito longe de sistemas operacionais nesse tempo. Tirando uma intervenção ou outra, não era algo que estava mais em contato no dia a dia. Meu computador de casa rodando OSX me da toda facilidade que preciso em ambientes unix-like, mas acabo ficando fora de como esta o desenvolvimento de uma cultura tão interessante, o software livre.

Até a última sexta feira.

O processo de instalação

Semana passada resolvi tentar converter meu notebook do trabalho para alguma distribuição linux mais simplificada, dessas top downloaded na distrowatch. As mais baixadas lá são o Mint e o Ubuntu, mas como eu não quero ser tão mainstream assim, optei pelo OpenSuSE, distribuição que já tinha testado lá por 2006, mas agora parecia bem reformulada. Em uma prova de conceito algumas semanas atrás vi um cara usando o OpenSuSE com o Gnome3 e achei lindo, então, resolvi testar.

O particionamento foi tranquilo e simples, parte que sempre me deixa tenso em instalar um sistema operacional paralelo. Danificar a tabela de partição do sistema concorrente é algo que não deixa ninguém feliz. Escolhi particionar em ext4, pelo que pesquisei é a atual mais confiável. ReiserFS, rest in peace. 

Todo processo de instalação do suse é bem simples e fácil, tirando a parte de selecionar pacotes, sempre exige um pouco de atenção para fazer as escolhas certas, ou você vai acabar precisando de uma biblioteca que não instalou. Precisei instalar o SuSE duas vezes, na primeira instalei todos os pacotes, incluindo diversos gerenciadores de janela. Depois reinstalei para fazer uma instalação mais criteriosa e limpa. Todo processo demorou por volta de 40 minutos.

 A duvida eterna, qual gerenciador de janelas?

Gnome 3 it is. Escolher qual gerenciador de janelas usar é uma das decisões mais complicadas, principalmente considerando que é total questão de gosto e, normalmente, acabamos sendo influenciado pelas opiniões de nossos amigos. Então optei pela que achei mais limpa e leve. Existem pontos positivos em cada uma delas, optei uma que não tivesse um menu iniciar. 

A interface do Gnome que acompanha o SuSE é de brilhar os olhos, sem dúvidas uma das mais bonitas disponíveis hoje. A interface traz um modelo de ação por cantos, que quando o mouse é arrastado para o canto esquerdo, as janelas caem em segundo plano e um dock com os softwares ‘favoritos”, como ele chama, aparece na lateral. No centro aparece as janelas abertas de forma organizada, possibilitando reposicionar ou fechar qualquer uma delas. Na lateral direita ficam os desktops múltiplos, fáceis de gerenciar. É quase uma versão alternativa do que eu mais gosto no OSX. Na lateral inferior direita, ficam os processos que estão abertos mais sem janela ativa, como em uma bandeja de tray do windows. No meu ali, tem duas conversas do GTALK e clipboard.

O sistema está bem fluido e estável, não tenho nada o que reclamar quanto a desempenho. Tudo está bem e rodando tranquilo. Up and running.

Integração


Existe uma integração muito interessante entre o Gnome e os serviços do Google, foi até um pouco surpreendente ver isso funcionar desse jeito. Existe um menu ali no topo com o nome do usuário, Alberto Brandão, como o print mostra. Nesse menu consigo acessar a opção “Online Accounts” e cadastrar contas do Google ou do Twitter.

Na integração com o google eu consigo vincular automaticamente o talk, gmail, contatos, calendário e documentos. Quando abri o Evolution, client de email que acompanha a distribuição, meus emails do google já estavam lá, o mesmo aconteceu com o empathy, que já veio com meus contatos do google talk configurados bonitinhos e assim por diante.

Da pra ver que eu vinculei o linux também à minha conta do Twitter, embora eu não faça a mínima ideia do que essa integração faça. Já que não veio nenhum client para twitter e não recebi nenhuma notificação causada por ele. Pesquisei em fóruns e aparentemente, ninguém tem muita ideia do que isso faz. Talvez seja alguma implementação para uma funcionalidade futura.

Integração do Talk é linda.

Problemas

Nem tudo são flores quando se trata de linux. Por mais que os xiitas insistam, não consigo dizer que linux é um sistema user friendly. Mesmo distribuições como o Mint ou Ubuntu que são bem simplificadas, podem chegar pontos em que o usuário fique confuso ou falte com conhecimento operacional. Não me refiro a coisas complexas, me refiro a situações simples, como por exemplo, o fone de ouvido que não é reconhecido automaticamente, fazendo o som sair pelas caixas de som. Aconteceu isso no Ubuntu do carinha aqui do lado, que também resolveu trocar o OS da máquina dele.

Outro problema clássico do linux é a fragmentação. Como existem diversos tipos de distribuição e as vezes até a mesma sofre diferentes formas de instalação, é possível que precise meter a mão em algum código, mesmo que seja para fazer algo bobo. Outra coisa que também não é muito intuitiva, é a forma de instalação. A plataforma RPM facilita muito as coisas, mas algumas vezes não existe a biblioteca que você precisa para instalar aquele software. Vou explicar por exemplo, como fiz para resolver dois probleminhas bobos aqui.

Instalando o Google Chrome

Instalar o Google Chrome não parecia ser a tarefa mais complicada. No site de instalação estavam as versões todas descriminadas, tudo bonitinho baixei o RPM para SuSE em 64bits e corri para o abraço. Fiquei no vácuo. Dei de cara com um erro, o rpm não se instalaria como eu pensei. Descobri um pouco depois que precisava instalar o lsb e as bibliotecas png. Isso demorou pouco mais uma busca no google pra mim, para um usuário normal, poderia ser um enorme transtorno.

Para instalar o lsb no OpenSuSE:

# yast -i lsb

E o libpng:

# wget
ftp://ftp.is.co.za/mirror/opensuse/distribution/12.1/repo/oss/suse/x86_64/libpng12-0-1.2.46-9.1.2.x86_64.rpm

# rpm -i libpng12-0-1.2.46-9.1.2.x86_64.rpm

Depois disso foi só instalar normalmente o rpm do chrome e ícone apareceu na lista de aplicativos do Gnome.

Instalando o VMware Player

Uso várias máquinas virtualizadas no trabalho, preciso dela para desenvolver algumas soluções e aplicar testes. Executar essas máquinas virtuais aqui é imprescindível, não seria possível trabalhar sem isso. Fiz o mesmo procedimento para instalar o VMware Player, entrei no site do fabricante e fiz download do .bundle, simples e indolor. Também não funcionou assim, precisava instalar um patch.

Baixei o arquivo o fix do vmware peguei o arquivo patch-modules_3.2.0.sh:

Editei no primeiro bloco de código a última linha, trocando a versão, que estava assim:

fpatch=vmware3.2.0.patch
vmreqver=8.0.2
plreqver=4.0.2

E ficou assim:

fpatch=vmware3.2.0.patch
vmreqver=8.0.2
plreqver=4.0.4

 Depois foi executar o .bundle com o comando sh e o patch em seguida.

# sh VMware-Player-4.0.4-744019.x86_64.bundle

# sh patch-modules_3.2.0.sh

Rede wireless não encontrada

Outro problema que encontrei, foi ao chegar em casa. Passei o dia inteiro trabalhando no linux do trabalho, mas quando cheguei em casa, o computador não localizava minha rede, apenas a minha rede. Conseguia identificar todas as outras redes disponíveis, quase 50, mas a minha rede não aparecia nessa lista. Inicialmente achei que fosse problema de criptografia, testei todas as combinações possíveis até que decidi abrir a rede, só para ver o que acontecia. Nunca apareceu. No tablet a rede funcionava e aparecia normalmente, nos outros notebooks também. 

Depois de bater um pouco de cabeça e revisar todas as regras do meu roteador, cheguei ao problema. O linux não consegue enxergar o canal que meu roteador estava transmitindo. Vira e mexe eu executo alguns testes para verificar a qualidade do canal que o router está transferindo, deixando então a configuração de forma fixa para o melhor canal que eu encontrar, normalmente opto por um canal bem alto. No caso atual, eu estava transmitindo pelo canal 13 e, por algum motivo, o linux não consegue alcançar esse canal. Troquei de canal e tudo voltou ao normal.

Descobri depois que existe uma regulamentação dos adaptadores wireless que, em alguns países, não podem acessar os canais 12 ou 13. Aparentemente para solucionar isso, basta mudar a região do adaptador, como no exemplo:

# iw reg set FR

# iw reg set US

Mais informações sobre iw:

Aprendendo com dificuldades

Usar uma distro linux no dia-a-dia tem suas vantagens, que para os curiosos de plantão, agrega um valor imenso. O Linux te força a aprender sobre ele, arrisco a dizer que nem apenas sobre ele, mas sobre sistemas de tecnologia em geral. Esse foi um dos grandes motivadores para instalar o sistema em minha estação de trabalho. Mesmo sendo mais trabalhoso e, na minha opinião, não indicado para leigos ou gente que não quer ter problemas maiores para resolver, para mim é um chute pra fora da zona de conforto. Em 5 dias que instalei precisei rever alguns códigos, alguns conceitos de programação, algumas noções de rede sem fio e canais (como relatei acima) e estudar vários outros pontos que estavam abandonados na minha cabeça, mas que acho importante estar em contato.

A unica coisa que realmente senti falta e que infelizmente ainda não existe nada a altura, é a suite office. Testei tudo que é solução até agora e nada me agradou. O mais próximo que consegui para trabalhar em documentos doc/docx sem criar uma bagunça quando enviar de volta para quem usa windows, foi através da versão web do Office Microsoft, o resto prejudica a visualização do documento. As opções para linux podem até permitir uma edição e visualização de conteúdo, mas estão longe de suprir a necessidade real de quem trabalha em multiplataformas.

 

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§ 2 Respostas para Linux em computadores pessoais, anos depois.

  • Felipe Borton disse:

    Oi Alberto, legal teu artigo. Me identifiquei com o relato pois no início da carreira sempre trabalhei com Linux em servidores, depois de um tempo, mudando de empresa, passei a suportar plataforma Microsoft e abandonei o Linux como workstation. Já faz alguns meses que uso o Ubuntu com gerenciador Xfce em casa, meu note é um pouco antigo e dessa forma fica muito leve, bem superior ao desempenho das Janelas, queria tentar usar o fluxbox mas aí é muito hardcore, hehe.

    A única coisa que tenho problema é realmente com a falta do Office da MS, pois não existe nenhum que se compara. Já li que o 2007 com Wine roda muito bem com o pinguim. No resto, é uma beleza, dual monitor e tudo mais.

    Abraço!

  • […] smartphone, alias, parece ser toda ideia por trás do sistema. Então resolvi testar para valer, assim como fiz com o SuSe 12 e postei aqui. Reparticionei meu computador e adicionei a nova versão windows que,  mesmo tendo a nova […]

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